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Acompanhamento transdisciplinar pode ser eficaz no tratamento do Autismo

Postado em 02 de Abril de 2019 ás 15:27

Transtorno afeta o desenvolvimento psicomotor e a capacidade de socialização

Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que cerca de 70 milhões de pessoas apresentam o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Estima-se que uma em cada 88 crianças tem traços de autismo, sendo cinco vezes mais prevalente no sexo masculino.

Hoje, no Dia Mundial de Sensibilização para o Autismo, a Agência Adventista Sul-americana de Notícias traz entrevista com a psicanalista Izabel Tafuri a respeito do TEA. Leia:

Por quais características se identifica o Transtorno do Espectro Autista?

As principais características que os médicos, psicólogos, psiquiatras e pediatras observam são: a dificuldade da criança de desenvolver a capacidade de conversação, não se fazendo entender nem por gestos nem por palavras. Ela também não consegue manter um vínculo por meio do olhar.

Outro comportamento é o que chamamos de mesmice; a criança precisa de uma rotina estrita, todo dia tem que acontecer a mesma coisa. Por exemplo, se alguma coisa no quarto dela muda, ou se os pais fazem um caminho para a escola diferente daquele ao qual está acostumada, ela tem uma crise. Toda vez que a rotina é quebrada, ela entra em estado de angústia. Além disso, são crianças que não atendem aos comandos, como quando são chamadas pelo nome, e não conseguem ficar em meio a outras crianças.

Também é muito comum haver, associado ao autismo, o transtorno sensorial. A criança foge de ambientes com barulho. Ela também pode reagir se mordendo, batendo a cabeça na parede, agredindo alguém que estiver por perto, gritando, pondo as mãos nos ouvidos, etc. Não há um padrão; cada criança reage de uma forma diferente. Mas o mais comum é elas se isolarem e fazerem maneirismos, como balançar as mãos, pular na ponta dos pés, etc.

Essa é uma compreensão do mundo psiquiátrico e da psicologia comportamental. Outra forma de compreender o autismo é por meio da psicanálise. Ela tenta entender a mensagem que a criança está produzindo por meio das estereotipias, que são a sua única forma de se manifestar no mundo.

Eu desenvolvi uma metodologia de trabalho que é por meio do espelhamento. A gente identifica a estereotipia e começa a fazer a mesma coisa. Imagine uma criança que está pulando na ponta dos pés, daí você começa a fazer isso também. Ela olha para os seus pés e se vê espelhada naquilo; é o que chamamos de identificação primária. Ela sente que você a compreende e que estão interagindo. Então, o pular na ponta dos pés se torna uma brincadeira. Daí a gente entra com ritmo, com espaço, pula num lugar, no outro, mais rápido, mais devagar… e a criança começa a sorrir, a olhar, a brincar de outras coisas.

É um tratamento bem diferente do clássico, que tenta “consertar” a criança, levando-a a abandonar os seus maneirismos, medicando-a e “adestrando-a” para que preste atenção ao ambiente ao seu redor, mas não podemos dizer que um esteja errado e o outro certo; são formas diferentes de se compreender uma mesma patologia.

Em que idade o transtorno começa a se manifestar?

Pode ser desde os primeiros seis meses de vida, quando o bebê não responde a nada, nem ao olhar materno quando está sendo amamentado, não sorri, não emite sons, não brinca… Mas se mostra de uma forma mais organizada entre o segundo e o terceiro ano de vida. A grande maioria das crianças chega até nós para tratamento com um ano e meio de vida, porque não conseguem desenvolver a fala, e isso é o que mais angustia os pais.

Mesmo com o tratamento, a pessoa, necessariamente, terá que conviver com os sintomas pelo resto da vida?

Na minha experiência clínica, a grande maioria das crianças que chegam para tratamento bem pequeninas, e que não têm outros transtornos neurológicos associados, vai perdendo as características autistas à medida em que começam a falar, a brincar, etc. Outras permanecem com os sintomas, de uma forma muito ou pouco aparente.

Para nós, psicanalistas, a cura não significa a remissão total dos sintomas. Se, mesmo mantendo alguns trejeitos, a criança se torna funcional e sociável, consideramos que ela está curada. Muitas conseguem se adaptar à escola, interagir, mas falham em desenvolver a capacidade cognitiva de simbolizar a realidade, ou seja, produzir metáfora, metonímia, entender uma piada ou jogos de linguagem. Do ponto de vista médico, se há qualquer restolho do transtorno, a pessoa é considerada autista pelo resto da vida. Então, são formas diferentes de interpretar o conceito de cura.

Como deve ser o acompanhamento de uma pessoa com autismo?

Desde pequenina, a criança precisa receber um tratamento multidisciplinar, ou transdisciplinar. A fonoaudiologia vai avaliar sua capacidade de fala, no sentido amplo do termo; não apenas se consegue pronunciar uma palavra, mas se é capaz de se comunicar, traduzindo seus sentimentos e necessidades com esta palavra. Porque muitas crianças autistas, por exemplo, cantam uma canção inteira, mas não conseguem responder a uma pergunta. Ou seja, elas falam, mas não conversam.

A psicoterapia vai desenvolver o senso de “eu” e a capacidade de suportar frustração. A psicomotricidade trabalha em cima do atraso no desenvolvimento. A terapia ocupacional trabalha o transtorno sensorial. A psicopedagogia é um apoio das escolas para uma aprendizagem mais individualizada. O acompanhamento terapêutico mantém um profissional próximo à criança em todos os lugares para ajudá-la a socializar.

Cada criança demanda um suporte específico de transdisciplinaridade. Algumas só precisam de psicoterapia, por exemplo. Outras precisarão de seis ou sete modalidades de tratamento. E, claro, o empenho da família e da escola é fundamental em todo o processo.

Hoje é o Dia Mundial de Sensibilização para o Autismo. Por que é necessária uma data para lembrar disso?

Ah, ainda existe muito preconceito! Muitas vezes, as pessoas acham que a criança não atende aos comandos por ser mal educada, e que está fazendo birra. Por ser mal compreendida quando está em ambientes sociais, seus pais se sentem temerosos e acabam alienando a criança, enquanto o que ela precisa é de apoio. E esse apoio é a sensibilização da sociedade.

Nós precisamos aprender com os autistas outras formas de ver a realidade. Alguns deles se tornam adultos com habilidades extraordinárias; pintam ou desenham muito bem, escrevem livros e poesias, têm uma sensibilidade grandiosa para música, para matemática, enfim… potencialidades que, muitas vezes, não são desenvolvidas porque nós não conseguimos dar a elas um ambiente favorável para se desenvolverem. A nossa necessidade é de ouvir os autistas, ao invés de apenas querer observá-los, medicá-los e adaptá-los à nossa realidade.

A especialista

Izabel Tafuri é psicóloga, psicanalista, formada pela Universidade Federal de Minas Gerais, com doutorado pela Universidade de São Paulo. Trabalha há 30 anos com atendimento clínico de crianças autistas, dá cursos e palestras na área e leciona na Universidade de Brasília.

Fundou, neste ano, em Brasília, a Companhia Terapêutica; uma clínica transdisciplinar de atendimento a crianças, adolescentes e adultos, que une vários saberes na busca pelo entendimento fidedigno das pessoas em fase de sofrimento.

 

FONTE: https://noticias.adventistas.org/pt/noticia/saude/acompanhamento-transdisciplinar-pode-ser-eficaz-no-tratamento-do-autismo/

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